As imagens de devastação e a tragédia humana registradas nesta semana em Vitória da Conquista não são apenas o resultado de uma tarde de chuva forte; são o sintoma de um colapso estrutural que atravessa décadas e sucessivas gestões. É necessário ter a honestidade intelectual de admitir: a cidade cresceu mais rápido do que a capacidade — ou a vontade — de suas administrações em planejar o que acontece abaixo do asfalto.
O Déficit Histórico: Onde a Engenharia parou no tempo
Não se trata de um problema exclusivo desta administração, mas de um passivo histórico. Grupos políticos de diferentes matizes, incluindo aqueles que governaram a cidade em décadas anteriores, falharam em priorizar o que é invisível, mas vital: a drenagem urbana. O modelo de desenvolvimento adotado em Conquista priorizou a impermeabilização do solo através do asfalto, sem a contrapartida necessária de galerias e canais de escoamento dimensionados para o novo volume de águas pluviais.
Avenida Caracas: A Reincidência como Prova de Omissão
O caso da Avenida Caracas é o exemplo mais doloroso dessa inércia acumulada. Se hoje lamentamos acidentes e buscas por desaparecidos em canais abertos, é porque, ao longo de gerações, o poder público — independentemente de quem ocupava a cadeira — tratou essas áreas com medidas paliativas em vez de soluções definitivas. A reincidência de tragédias no mesmo local é a prova de que a gestão pública, historicamente, tem sido reativa ao desastre, e não proativa na engenharia.
Asfalto vs. Drenagem: A Conta que não fecha
Apontar que o problema é antigo não isenta a gestão atual de sua responsabilidade presente. Pelo contrário: aumenta a cobrança por um rompimento definitivo com esse ciclo de negligência. A “surpresa” diante da força das águas não cabe mais em um cenário onde os pontos de alagamento são mapeados há mais de 20 anos.
Além das Notas Oficiais: Por um Projeto de Estado
O Blog do Geo propõe essa reflexão: até quando assistiremos ao mesmo roteiro de luto e prejuízo apenas trocando os nomes dos gestores nas manchetes? A solução para as cheias em Conquista não virá de notas oficiais ou reuniões de emergência, mas de um projeto de estado que sobreviva aos ciclos eleitorais e trate a infraestrutura de drenagem como a prioridade de vida que ela realmente é.
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